Degustação

CAPÍTULO 1 — CORRA, LOLA, CORRA!

Sombras e sons de passos pesados se aproximam. Naquela noite o ar frio avançava junto com a névoa fraca, na rua não havia ninguém próximo que pudesse vê-la e seu grito de pânico seguia preso na garganta. A mulher apressou-se pela rua escura onde era seguida por um homem maior e mais forte que ela. De salto alto, encontrava-se em desvantagem na corrida. Ao chegar próximo à esquina, um gato siamês pulou de um muro, atravessando o seu caminho e fazendo-a perder suas poucas chances de escapar.

Em segundos é agarrada pelos cabelos presos em forma de rabo de cavalo. Nessa hora já sentia o cheiro forte de pinga barata misturado com cigarro que vinha da boca masculina. A angústia é tanta que ela tentava gritar, mas não conseguia.

Ela quer se livrar do seu agressor, mas é impossível. Finalmente consegue emitir um som. Ele sai rouco e baixo no momento em que recebe o primeiro soco no rosto. O sangue escorre e mancha sua camisa branca de botões. Na escuridão do beco para o qual foi arrastada, ratazanas encardidas que subiam pelas paredes são as únicas testemunhas da brutal violência que sofre.

Depois do terceiro golpe, a mulher está prestes a desmaiar, mas antes de perder os sentidos ainda consegue escutar o tecido da sua calça jeans ser rasgado pela faca do agressor. Seu corpo inteiro treme ao ver o fio da lâmina que a domina nesse instante.

Em um movimento brusco o homem a vira de costas, termina de rasgar sua roupa e bate a cabeça dela com toda força contra o muro de uma casa abandonada. As pernas da mulher ficam bambas, seus joelhos dobram, ela cai e em seguida sente que não tem mais como evitar o que irá acontecer. O felino de um olho só volta a rondar e se assusta com o som que o corpo dela faz ao cair no chão, derrubando três garrafas de cerveja vazias. Nesse instante o homem abre a braguilha e se prepara para penetrá-la.

— AAAAAAHHHHHHHHAAAAA!!!!!!!!

A força do grito que ela dá finalmente consegue acordá-la. Ela senta na cama e olha assustada em volta. Verifica se está realmente sozinha. O coração, que bate a mil por hora, parece que vai sair pela boca. Mais uma vez o pesadelo da violação do seu corpo vem atormentá-la no meio da madrugada.

O tecido da camisola está todo ensopado. Para se recuperar, passa as mãos pelo rosto tentando tirar o excesso de suor e as esfrega com força no lençol amassado. Ela se levanta e caminha ainda no escuro em direção à cozinha em busca de um copo de água capaz de fazer sua respiração voltar ao normal. Seria esse sonho uma lembrança de seu passado que insiste em retornar ou um anúncio de momentos terríveis que estariam por vir?

***
O início da sua vida foi pelo menos estranho. Praticamente logo depois do seu nascimento aconteceu uma escolha que não a iria favorecer. Seu nome parece um apelido, mas não é.

Seus pais assistiram, juntos, ao filme Lolita, que foi inspirado na obra de mesmo título, escrita por Vladimir Nabokov em 1955. Gostaram tanto da película que resolveram batizar sua única filha com um nome que lembrasse o da protagonista. No cartório, todos estranharam bastante quando o pai disse que o nome foi inspirado no filme, mas foi feita a vontade do senhor Rogério.

Uma das consequências dessa decisão foi que ela, ao longo da sua vida e desde muito cedo, foi obrigada a ouvir uma coleção de frases ridículas ditas por pessoas que tentavam fazer graça com o seu nome. Foram tantas piadinhas idiotas, que ela logo passou a entender que não seria fácil conviver com pessoas que precisam entender que quando só um ri, isso não é brincadeira, mas sim ofensa. Mas quem dera seus problemas tivessem sido só esses.

A face de Lola, quase sempre sombria e sem graça, não combinava com a das outras crianças da mesma idade. Ela cresceu em uma cidade turística do interior de Minas Gerais. Não gostava de festas, nem de conhecer novas pessoas. Muitas vezes fingia-se de surda para não interagir com ninguém. Os seus pequenos olhos quase sempre apontavam para o chão. A voz da menina parecia não existir.

Na maioria do tempo ela tinha quase certeza que o universo conspirava contra ela. Seu maior sonho era viver em um mundo só seu, no qual todos os seus problemas podiam ser apagados com a facilidade de quem usa um apagador em uma lousa. Quando podia, apreciava sentar na janela do seu quarto para observar o trânsito e o vai-e-vem dos turistas nos dias em que a cidade ficava mais cheia por conta dos feriados prolongados.

Quando Lola estava nas primeiras séries do primário, a mãe dela, Norma, ou então a empregada da casa, levavam-na para escola e a buscavam na volta. A menina achava bom, pois podia caminhar pelas ruas arborizadas de São Lourenço sem se preocupar. Havia dias em que gostava de fazer um pouco de bagunça pelo caminho. Pulava obstáculos imaginários, formados por linhas existentes nas calçadas, e saltava pelos canteiros de flores cultivados pelos moradores do seu bairro.

Tudo mudou quando terminou a 4ª série…

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fotonova

Foto: arquivo pessoal.

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